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Táxis versus aplicativos? Ou motoristas versus veículos autônomos?

Táxis versus aplicativos? Ou motoristas versus veículos autônomos?

Os veículos autônomos eliminarão postos de trabalho de motoristas, esta discussão é tão ou mais relevante que as disputas entre táxis e aplicativos.

A disputa entre táxis a aplicativos atingiu um ponto alto na semana passada com a votação da PLC 28/2017 no Senado. Como sou um usuário frequente de aplicativos acompanhei as discussões com interesse. Chamou-me a atenção que durante as discussões poucas vezes foi mencionada a questão dos veículos autônomos.

Lembre-se que veículos autônomos são um conjunto de inovações que substituirão motoristas de automóveis e caminhões. É uma tecnologia que está sendo desenvolvida pela Google, Uber, indústria automobilística e uma série de startups, entre outros.

Assim, os veículos autônomos representam uma ameaça de extinção de empregos para motoristas de táxis, aplicativos, caminhões e ônibus. E é uma ameaça cada vez mais presente.

As profecias do cinema

Não vou citar as diversas matérias que tem sido publicadas sobre veículos autônomos para demonstrar que esta inovação já está chegando.

Vou usar outras referências inusitadas (rsrsrs) para mostrar que o assunto “veículos autônomos” está batendo na nossa porta.

Em 1990 foi lançado o filme Total Recall (Vingador do Futuro) com Arnold Schwarzenegger. O filme se passa em 2084 e numa cena de perseguição o personagem de Schwarzenegger usa um táxi autônomo.

Não confunda este filme com a refilmagem de 2012, a qual não tem veículos autônomos.

No último final de semana assisti outro filme, chamado Geostorm (Tempestade: Planeta em Fúria) o qual foi produzido neste ano. O filme se passa em 2019, daqui a dois anos, e também usava um táxi autônomo numa cena de perseguição.

Ou seja, em Hollywood, os táxis autônomos foram trazidos de um futuro mais distante (2048) para o nosso curto prazo (2019). Isto não é licença poética dos roteiristas. Veículos autônomos começam, cada vez mais, a fazer parte do nosso dia a dia.

Qual o impacto potencial disso no Brasil?

Você já pensou qual o potencial impacto disso para as pessoas que trabalham como motoristas no Brasil, em especial as pessoas de baixa escolaridade?

Vejamos alguns números.

Taxistas

De acordo com a Associação de Empresas de Táxis do Município do São Paulo (ADETAX) existem nas capitais brasileiras cerca de 130.000 táxis. Vamos considerar, nesta análise, que existe igual quantidade de taxistas.

A Confederação Nacional dos Transportes (CNT), numa pesquisa de 2016, aponta que 32% deles tem o ensino fundamental ou menos.

Motoristas de Uber

Num artigo recente publicado na Folha de São Paulo, a Uber afirma que tem mais de 500.000 motoristas ativos, ou seja, motoristas que fizeram alguma viagem no último mês.

Motoristas de ônibus Urbanos

Conforme a  Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) a frota brasileira de ônibus é de cerca de 96.000 veículos. Aqui também vamos considerar que existe igual quantidade de motoristas.

A CNT, numa outra pesquisa de 2017, indica que  28% destes motoristas tem o ensino fundamental ou menos.

Motoristas de Caminhões

DE acordo com informação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em 2014, existiam mais de 1 milhão de motoristas cadastrados para transporte de carga superior a 500 kg.

De novo a CNT, em outra pesquisa de 2016, aponta que 55% deles tem o ensino fundamental ou menos.

Fechando as contas (e as vagas de trabalho)

O levantamento acima totaliza mais de 1.700.000 profissionais, muitos dos quais tem no máximo o ensino fundamental. Atentem que as premissas usadas (um motorista por táxi, por exemplo) são conservadoras. O total provavelmente é maior.

Se os veículos autônomos eliminarem metade destas vagas, teremos 850.000 profissionais disponíveis no mercado. Provavelmente profissionais de baixa escolaridade e qualificação, num mercado onde oportunidades para este perfil estão reduzindo. A chegada dos veículos autônomos afeta a todos os motoristas, independente de eles trabalharem em táxis ou aplicativos!

Lembrem-se que em paralelo a veículos autônomos outras inovações estão sendo desenvolvidas. Você já assistiu o vídeo do Amazon Go? Assista e veja o futuro dos caixas e atendentes de mercado.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (IBGE, 2015) o Brasil tem 56% da população com 25 anos ou mais tem até 10 anos de estudo Isto corresponde no máximo ao ensino fundamental completo.

Outro dado sobre o Brasil. Até setembro passado, também segundo o IBGE, havia mais de 12 milhões de desempregados.

Neste contexto, a expectativa de eliminação de postos de trabalho que demandam profissionais pouco qualificados em função de inovações em curso é uma perspectiva que deve preocupar a todos. Mesmo que seja uma perspectiva no médio prazo.

O que devemos fazer?

Em primeiro lugar quero deixar claro que não sou contra estas inovações, muito pelo contrário. A questão que levanto ao escrever este post é como minimizar os efeitos danosos da chegada delas.

Num mundo perfeito, acredito eu,  o governo deveria conduzir uma discussão junto com diversos segmentos da sociedade, para definir uma estratégia. Nesta estratégia, cada um teria seu papel. O papel do governo seria garantir que “as regras do jogo” estão sendo cumpridas. Em outras palavras, garantir que todos cumpram seus papéis com mínimos desvios ou lacunas.

Além disso, problemas previsíveis, ou seja, riscos devem ser tratados com antecedência. É para isto que serve o gerenciamento de risco, entre outras ferramentas de gestão.

Mas, isto está sendo pensado? Existe uma estratégia definida para lidar com isto?

Atente que estas não são perguntas retóricas para fechar o post em “grande estilo”.

O fato é que eu não tenho encontrado evidências de que isto está sendo pensado (ou feito). Assim, se algum leitor quiser fazer alguma contribuição dividindo comigo e outros leitores respostas mesmo que parciais a estas perguntas, eu agradeço.

Para finalizar, quero dizer que com este post estou dando início a um novo assunto (categoria) no blog. Chamei esta categoria simplesmente de “Brasil”. O objetivo dela não é discutir questões relativas à gestão de produção, mas assuntos que, pela atualidade deles, são de interesse de todos os leitores.

Alexandro Avila de Moura
Engenheiro Mecânico graduado na UFRGS. Especialização em Gestão Estratégica (USP) e Gerenciamento de Projetos (Pitágoras). Mestrado em Administração incompleto (PUC MG). Experiência de mais de 25 anos no setor de mineração, especificamente nas áreas de gestão de operação, manutenção e desenvolvimento de projetos, liderando grandes equipes. Certificado como PMP (Project Management Professional) pelo PMI (Project Management Institute). Número PMP 182 8522. Experiência também nas áreas de segurança e saúde ocupacional, meio ambiente e relacionamento com comunidades e na área financeira.

1 pensamento em “Táxis versus aplicativos? Ou motoristas versus veículos autônomos?

  1. Nercy Grabellos disse:

    Eu tenho lido sobre este assunto evidentemente com um misto de deslumbramento e preocupação, a velocidade do desenvolvimento tecnológico que a máquina substitui o homem impressiona mas também envolve riscos que é necessário observar e agir com antecedência, antes que as consequências sejam inevitáveis. Penso que no futuro haverá novas profissões, tem que haver uma adaptação no sistema educacional que precisa estar adequado para preparar as pessoas a novas tarefas substitutivas das atuais.

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