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Lava Jato e um dicionário sobre gerenciamento de riscos

Lava Jato e um dicionário sobre gerenciamento de riscos

Há algumas semanas atrás eu estava assistindo a um depoimento da Operação Lava Jato. Nele o depoente usou a expressão “fratura exposta” no sentido de exposição ao risco. Noutro momento ele usou “forma amenizada” no sentido de mitigar o risco.

Ocorreu-me a seguinte pergunta: Que aspectos da Operação Lava Jato podem ser relacionados com o Gerenciamento de Risco?

É obvio que toda a pessoa que comete atos ilícitos faz uma análise de risco, provavelmente mínima e desestruturada, antes de cometer estes atos. Lembre-se, para atos ilícitos existem ameaças (a Polícia) e oportunidades (o butim). Butim, um termo que ouvi num filme de piratas, é o produto de roubo ou saque, conforme o Michealis On-line.

Decidi relacionar a Operação Lava Jato e a Gestão de Riscos através de um pequeno dicionário. Óbvio que isto é uma brincadeira, mas ao mesmo tempo é uma crítica aos corruptos que tantas perdas trazem para o país.

Antes de você ler os verbetes, é importante esclarecer que não estou entrando no mérito se os réus são realmente culpados ou não. Nem no mérito de um partido ter maior envolvimento nos atos ilícitos que outro. Estou apenas relacionando aspectos da Operação Lava Jato com conceitos de gestão de risco.

1. Automóveis, dinheiro, imóveis e outras vantagens

É o butim. Lembra do filme de piratas que mencionei?

São os efeitos (leia-se “impactos”) positivos das oportunidades associadas aos atos ilícitos. Um empresário ganha certa vantagem devido a uma decisão de um administrador público. Este administrador por sua vez recebe automóveis, dinheiro ou imóveis.

Oportunidade é o risco cujo impacto é positivo.

Gestão de Produção com Alexandro

Photo by <cmfg804> at pixabay.com

2. Delação premiada

Delação premiada é uma forma do individuo que está sendo processado pelo Ministério Público, ou seja, do réu mitigar a ameaça de ir para a cadeia.

Ameaças é o risco cujo impacto é negativo.

Mitigar uma ameaça é quando são tomadas ações para reduzir a probabilidade dela ocorrer e/ou o impacto negativo dela.

3. Delator

Esta é fácil. É quem pratica a delação, ou seja, a pessoa exposta à ameaça de ir para a cadeia. O pirata arrependido?

4. Depoimento de negação

Chamei de depoimento de negação aquele em que o réu usa expressões tais como “eu não sei”, “eu não conheço” ou “este assunto era responsabilidade de fulano”, entre outras possibilidades.

Supondo que o réu em questão é culpado, provavelmente é o depoimento de quem não tem a quem delatar.

É uma tentativa de transferir para outros a ameaça de ir para a cadeia.

Transferir uma ameaça é quando o impacto dela é transferido para terceiros. A propriedade (ou responsabilidade) da resposta também é transferida para este terceiro.

5. Empresários e administradores públicos

São os candidatos a réus, ou seja, são as pessoas que podem ter cometidos atos ilícitos estão expostas as ameaças e oportunidades associadas.

A discussão se a corrupção começa com os empresários ou com os administradores públicos e uma discussão do tipo “Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?”. Não vou entrar nela.

Eles exploram as oportunidades dos atos ilícitos de duas maneiras: Eles melhoram e compartilham.

Melhorar uma oportunidade é quando são tomadas ações para aumentar a probabilidade dela ocorrer e/ou o impacto positivo dela.

Compartilhar uma oportunidade é quando a propriedade (e responsabilidade) dela é atribuída a terceiros. Assume-se que este terceiro tenha melhores condições de capturar esta oportunidade.

6. Fuga do país

É a última alternativa que o réu tem para lidar com a ameaça de ir para a cadeia, desde que ele vá para um país sem acordo de extradição com o Brasil, ou algo que o valha, e fique quietinho lá.

Talvez possamos “enquadrar” esta ação como eliminação da ameaça, desde que ele fique quietinho lá. Talvez…

Eliminar uma ameaça é quando se toma ações para remover ela.

7. Imunidade

É a primeira alternativa usada pelos administradores públicos, que são réus ou podem vir a ser, de mitigar a ameaça de ir para a cadeia.

8. Ministério público e Polícia Federal

São stakeholders, ou partes interessadas, dos empresários e administradores públicos que cometem atos ilícitos.

Stakeholders ou partes interessadas são as pessoas, grupos ou organizações que podem ser impactadas ou podem impactar as atividades de uma organização (ou de outras pessoas).

Como os stakeholders podem impactar as atividades de uma organização ou de pessoas, eles podem representar ou carregar riscos para esta organização ou estas pessoas.

9. Operação Lava-jato

A Operação Lava-Jato foi uma reposicionamento do stakeholder Polícia Federal, e posteriormente Ministério Público, em relação às atividades ilícitas de determinados empresários e administradores públicos.

Este reposicionamento aumentou a probabilidade do risco deles se tornarem réus.

Reposicionamentos de stakeholders podem alterar a probabilidade e o impacto dos riscos a eles associados.

10. Segunda instância (e outras superiores)

Quando o réu já foi condenado em Primeira Instância, a Segunda Instância e as outras superiores representam tentativas de mitigar ou eliminar a ameaça de ir para a cadeia.

A mitigação ocorre com uma redução de pena e a eliminação com a absolvição.

Espero NÃO ter a “oportunidade” de, no futuro, fazer uma 2ª parte do dicionário com novos verbetes

Chegamos ao final deste post. Minha intenção ao escrevê-lo também foi:

  • Demonstrar que gerenciamento de risco pode ser aplicado a todas as atividades, inclusive as ilícitas, por mais insano que isto pareça!
  • Repassar com o leitor conceitos de gerenciamento de risco que devem ser usados para assegurar melhores resultados para as atividades lícitas. Sem “i” mesmo!

Se quiserem sabem mais sobre os conceitos de ameaças e oportunidades leiam o postAmeaças e oportunidades – Duas irmãs em eterno conflito“.

Já se quiserem saber mais sobre os tipos de respostas para ameaças e oportunidades leiam este outro postTipos de resposta aos riscos – Como lidar com eles“.

Espero que tenham gostado. Abraços.

Alexandro Avila de Moura
Engenheiro Mecânico graduado na UFRGS. Especialização em Gestão Estratégica (USP) e Gerenciamento de Projetos (Pitágoras). Mestrado em Administração incompleto (PUC MG). Experiência de mais de 25 anos no setor de mineração, especificamente nas áreas de gestão de operação, manutenção e desenvolvimento de projetos, liderando grandes equipes. Certificado como PMP (Project Management Professional) pelo PMI (Project Management Institute). Número PMP 182 8522. Experiência também nas áreas de segurança e saúde ocupacional, meio ambiente e relacionamento com comunidades e na área financeira.

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